36
FIGURA 2:
Ebulidor de Franklin.
PESQUISADOR:
A ideia é tentar explicar por que esse lí-
quido sobe.
ANA PAULA:
Por causa da transferência de calor da mi-
nha mão para o líquido.
PESQUISADOR:
O líquido recebe calor?
ANA PAULA:
É, da minha mão.
PESQUISADOR:
E o que acontece com ele?
ANA PAULA:
As moléculas se agitam e a tendência é su-
bir.
((...))
Os conceitos-em-ação e os teoremas-em-ação utilizados nesse caso revelam
que há um compartilhamento de certas propriedades entre os conceitos co-
tidianos e os científicos. Integrando conceitos cotidianos de calor e tempera-
tura com elementos dos conceitos científicos, Ana Paula consegue construir
uma explicação complexa, apesar de incoerente no plano científico.
Percebemos a utilização dos conceitos-em-ação de calor e temperatura e
um teorema-em-ação que indica que o calor dilata os corpos. Essa dilatação
faz com que o líquido suba no aparelho. A explicação é coerente para Ana
Paula e encontra-se em um patamar intermediário entre o senso comum
e o modelo científico. Esses conceitos e teoremas em ação podem sofrer
alterações qualitativas com a abordagem de novas situações.
Na situação apresentada, quando o ebulidor de Franklin é resfriado em sua
parte superior, o líquido também se desloca para cima. O modelo apresen-
tado por Ana Paula torna-se incompatível para explicar a nova situação.
Nesse caso, é necessária a tentativa de uma nova abordagem, com a utiliza-
ção de outros teoremas-em-ação.
Esse é ummomento de desequilíbrio na estrutura cognitiva de Ana Paula. É
possível que Ana Paula não dispusesse da capacidade para explicar a situa-
ção. A mediação do pesquisador pode ser feita no sentido de auxiliar a estu-
dante na reequilibração e a nova estruturação dos conhecimentos-em-ação
torna seus esquemas mais abrangentes e qualitativamente melhores. Esse
mecanismo só pode acontecer porque a situação estava dentro da Zona de
Desenvolvimento Proximal de Ana Paula. Do contrário, a explicação científi-
ca não poderia ser alcançada pela estudante.
wk