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insubmissão. Uma de suas tarefas primordiais é trabalhar com os educan-
dos a rigorosidade metódica com que devem se aproximar dos objetos
cognoscíveis. E esta rigorosidade metódica não tem nada que ver com o
discurso bancário meramente transferidor do perfil do objeto ou do conte-
údo. É exatamente neste sentido que ensinar não se esgota no tratamento
do objeto ou do conteúdo, superficialmente feito, mas se alonga à produ-
ção das condições em que aprender criticamente é possível” (FREIRE, 2000,
p. 28-29).
O professor que pretende trabalhar nesta perspectiva deve estar preparado
para transgredir, questionar e contrapor vários mitos a respeito do ensino de
Física. É possível que enfrente questionamentos por parte dos pais dos alu-
nos que foram formados à luz (?) da concepção matematizada e, portanto,
acham que a Física se resume a um – grande grupo de equações. Se assim
fosse, qualquer computador de capacidade mediana conseguiria produzir
mais do que vários Einsteins juntos. Os próprios currículos e vários livros di-
dáticos ainda não estão em perfeita sintonia com essa nova concepção de
ensino, enfatizando, em vários momentos, aspectos por demais matema-
tizados em detrimento de uma discussão mais aprofundada da base con-
ceitual da Física. Vamos analisar o trecho retirado de um artigo de Manoel
Robilotta e Cezar Babichak.
“... não somente o que falamos, mas também o que não falamos possui um
significado. As lacunas, os não ditos, também exprimem ideias. E existem
muitas lacunas na sala de aula. Se tomarmos os livros didáticos de física, que
estão muito presentes na nossa atividade, e os analisarmos, veremos que há
muitas coisas que eles não discutem. Isso faz com que nós, professores, não
demos maior atenção aos mesmos assuntos. Por exemplo, no estudo dame-
cânica clássica, temos as três leis de Newton da dinâmica. Na sala de aula,
nós falamos umpouquinho da 1ª lei, a lei da inércia, e bastante das outras leis,
principalmente da 2ª lei. Por quê? Porque coma 2ª lei nós podemos fazer con-
tas. Com a 1ª lei isso não é possível. Então nós banalizamos a 1ª lei. Mas com
certeza Newton não a colocou em primeiro lugar por ingenuidade. Há uma
razão para que ele tenha feito isso. E se pararmos para analisar o significado
das três leis de Newton, veremos que a 1ª lei é muito mais importante que as
outras, pois é nessa lei que está o conteúdo metafísico da teoria. É lá que diz
comqual universo ele trabalha. As ideias de que existem espaço e tempo uni-
formes e suas propriedades estão todas contidas na 1ª lei. LáNewton explicita
o que é natural no mundo, o que não é explicado, o ponto de partida para
desenvolver suas ideias. Na 2ª lei ele fala de coisas forçadas, coisas que não
são naturais ou espontâneas. (ROBILOTTA e BABICHAK, 1997, p. 42-43).”
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